Continuando agora com as dicas do post anterior
(clique aqui se você ainda não o viu), agora vou tentar abordar um pouquinho
mais os aspectos técnicos do processo. Muito do conteúdo que vocês vão ver aqui
foi retirado de um excelente artigo redigido pelo Lasse Rode, do Studio XOIO,
em Berlin. Esse cara trabalha basicamente com ilustração arquitetônica e tem
trabalhos lindíssimos no seu site. Sempre bom dar uma olhadinha pra se
inspirar.
Como disse na primeira parte, essas dicas são
intercambiáveis para a fotografia e para a renderização fotorrealista, em sua
maioria. Antes falei um pouco dos ângulos e da importância da luz natural,
agora vou falar um pouquinho mais sobre composição, foco e contraste.
Pense com
cuidado na composição de suas cenas!
Composição, ao meu ver, é a grande chave que vai
diferenciar um bom trabalho de um trabalho mais ou menos. Infelizmente, nós
como arquitetos temos mania de querer mostrar o máximo possível do ambiente em
uma cena só... Ás vezes o motivo não é nada nobre: os clientes querem as
imagens pra ontem, ou então (principalmente no caso de se renderizar projetos
de terceiros, para colegas arquitetos apresentarem para seus clientes) busca-se
reduzir ao mínimo a quantidade de imagens renderizadas para economizar no
pagamento do pobre do ilustrador. Fica muito complicado, com esses limitadores,
buscar seguir à risca as técnicas de composição...
Apesar disso, devemos sempre buscar ter em mente a
questão da composição na hora de renderizar/fotografar, por mais que isso seja
difícil. A organização dos elementos das imagens deve ser clara para facilitar
a compreensão do observador em relação àquele ambiente.
Lembram-se quando falei dos ângulos? Na imagem acima
temos exemplificadas algumas das opções mais básicas de ângulos de visão de um
observador... Esses ângulos em específico favorecem uma boa composição de cena
porque diminuem a quantidade de linhas de perspectiva, acelerando o processo de
compreensão da imagem. Não deixe de capturar todos os ângulos (como falei
aqui), mas na dúvida (ou na falta de tempo), comece por estes acima.
Ângulos básicos aplicados
A regra de ouro da composição de imagens é a chamada
regra dos terços ("rule of thirds", não estou bem certo quanto ao
"nome oficial" em português, mas é algo do tipo, hehe). Divida a sua
imagem verticalmente e horizontalmente em três partes. Qualquer coisa em sua
imagem que esteja sobre as linhas, ou no encontro delas, receberá mais enfoque
e será percebida mais claramente pelo observador (veja os exemplos acima).
Aplicação da regras dos terços
Cenas cujos elementos focais
principais encontram-se nessas áreas são mais harmoniosas... faça o teste: vá a
uma praça e escolha uma árvore. Fotografe essa árvore de forma centralizada,
depois tente fazê-lo deslocando a câmera para um dos lados, alinhando o tronco
dela com uma das linhas verticais (a maioria das câmeras digitais hoje em dia
oferece a opção de mostrar no visor as linhas de grid da regra dos terços).
Note como a segunda imagem de alguma forma apresenta um resultado melhor... essa
é a magia da composição agindo sobre a sua foto.
Foque nos
planos (ou não!)
Também faz parte das regras de composição atentar para
a disposição dos elementos diversos presentes nas fotos e renders em seus
respectivos planos. Como assim? Geralmente em uma imagem existe o plano dos
elementos mais próximos do observador (1º plano), o plano intermediário (2º
plano) e o plano mais distante (3º plano). Às vezes, podemos ter mais ou menos
planos de elementos, dependendo das características da cena... poucos planos
podem tornar a imagem chapada, afinal são eles que conferem profundidade à
imagem. Só que planos demais podem poluir a cena, dificultando a compreensão
por parte do observador e passando a impressão de desorganização.
Uma coisa que ajuda na questão da organização dos
planos e que fica linda em uma fotografia/render é trabalhar o "depth of
field" (ou DOF pra encurtar) para desfocar alguns planos, valorizando os
elementos principais da cena.
Acima, temos um exemplo dessa ideia aplicada de forma didática...em cada uma das situações, temos três planos de composição na imagem. Na primeira, note como o primeiro plano se sobressai ao desfocar o segundo e o terceiro. Na segunda, o segundo plano é que está sobressaído. No terceiro caso, o plano de fundo fica mais evidente. No quarto caso temos todos os planos em foco...repare como aqui não temos tanto a noção de profundidade, e como os três planos "brigam" entre si pela atenção do observador.
Se você não sabe direito o que é "depth of
field", clique aqui e assista a esse excelente vídeo do Flávio Lamenza,
que fala de forma bem didática o que é e como atingir esse resultado com a
câmera fotográfica (não são todas as câmeras que conseguem esse resultado, isso
envolve poder mexer no diafragma, e por consequência no obturador... assistam ao
vídeo que vocês entenderão melhor do que se eu tentar explicar, hehe). No caso
de renderizações, alguns softwares já oferecem embutidos em suas configurações
a opção de mexer no DOF... ou você pode simplesmente trabalhar isso em um
editor de imagens como o photoshop.
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| Primeiro plano desfocado |
Apenas tome cuidado para não exagerar...saber usar o
DOF por si só é quase uma arte. Se você abusar ou economizar no desfoque dos
planos você pode obter resultados não muito bons. Só com o treino mesmo
poderemos adquirir esse senso de equilíbrio necessário para um bom resultado...
mãos à obra!
Tenha uma boa
gama de cinzas em sua imagem.
Essa dica se relaciona com a dica da luz do primeiro post. Uma boa cena é aquela que apresenta um bom contraste e uma gradação completa
de cinzas (ou cores), do branco ao preto.
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| Exemplo de cena com boa gradação de cinzas |
Vou me explicar: é que na verdade as imagens como as
percebemos são oriundas da reflexão da luz sobre a superfície dos objetos.
Diferentes fontes de luz refletindo em diferentes superfícies geram uma
gradação aos nossos olhos que muitas vezes passa despercebida. Olha para a
parede da imagem acima. Nosso cérebro nos diz que é uma parede branca, certo?
Mas se olharmos atentamente para a imagem, veremos que a única parte realmente branca da imagem inteira está na luz entrando da janela... a parede em si é uma compilação de
cinzas. Vêem?
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| Gradação de cinzas da imagem |
Da mesma forma funciona com as cores: uma parede,
digamos, vermelha apresenta dezenas de tons diferentes de vermelho, alguns mais
clarinhos, se aproximando do branco, e outros mais escuros, se aproximando do
preto...
Ter uma boa gama de cinzas significa encontrar um
equilíbrio apropriado para que sua cena não esteja iluminada demais (muitos
elementos brancos, sombras chapadas quase pretas) ou de menos (muitos cinzas,
quase nenhum preto ou branco). Essa gradação enriquece a imagem, e a torna mais
interessante, chama muito mais à atenção.
Na hora de fotografar podemos regular um pouco isso
através do fotômetro da própria câmera fotográfica (de novo vou linkar um vídeo
do Flávio... aqui ele explica direitinho essa ferramenta). No render
controlamos isso na colocação das fontes de luz ou também com editores de
imagens. Mexer no contraste e nos níveis de uma imagem também requer bom senso!
Tome muito cuidado para não exagerar.
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Com isso vou parando por enquanto a parte 2. Ainda
falta um pouquinho pra dizer, basicamente sobre a preparação do ambiente antes
da foto/render, principalmente em relação à adornos, enfeites, etc... Esse
assunto tem muito a ver com a composição, mas vou deixar para um outro post. Espero
ter contribuído alguma coisa com o pouco que aprendi... Até a próxima!